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— Assim que as suas mãos tocaram as minhas no escuro, o meu primeiro impulso foi de não voltar mais aqui — recebeu o olhar dele assustado, sucedido de silêncio — . Eu não queria não ser mais a mesma — dessa vez, foi ela quem pausou o pensamento por segundos — . Depois, eu percebi que o velho espelho já não me servia mais. Ou melhor: que eu não quero mais fixar o meu olhar nele.

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Já não há mais posição na cadeira

para o meu pé parar de formigar.

A mensagem que meu corpo envia

é de que a posição desktop

não pode passar do horário comercial.

Nessa noite,

minha cabeça não imprime sequer um poema

ela só se aperta ao pensar

em como vai se encarar nos olhos da terapeuta.

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Escrever é estar na berlinda da exposição. Ao decidir ser escritora (decisão que eu preciso refazer constantemente), tenho flutuado sobre a minha introversão.

No entanto, quando me deixo ser vulnerável e abandono (parte das) barreiras, é também o momento em que acontece a mágica de se abrir.

O outro, esse ser que parece estar do outro lado do precipício, me recebe com o seu colchão de sentimentos que alternam entre identificação, acolhimento, empatia, estranhamento, susto, ironia e desgosto.

Esse encontro sempre gera aquele frio na barriga, já que lidamos com o inesperado. Mas ainda vale a pena. É o que me mantém na linha tênue de me revelar, onde balanço, tropeço, danço, regozijo, padeço e resisto.

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Mas é um corpo que já passou por muito. Principalmente alegria, desejo e sonho.

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Não consigo impedir o meu corpo de devaneios enquanto estou acordada.

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Meu corpo já gestou muitas ideias. Já cuidou de gente, bicho, planta. E percorreu um bocado de chão.

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Meu corpo tem essa pressa de viver como numa letra de Belchior. Mas também se demora nas letras Luedji Luna.

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Meu corpo tem bem mais do que 70% de água. É feito, na verdade, de mar e vento.

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Olhando assim, nem parece, mas ele voa. Ele tem asas no caminhar.

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Liberta

A mulher livre estava dentro da jaula.

Sim, você leu certo.

A mulher era livre,

Mas jaula era a opressão.

“Fique quieta”.

“Fale pouco”.

“Cruze as pernas”.

“Você precisa se guardar para um homem especial”.

A mulher livre descobriu que tinha medo de sair da jaula

E nunca mais ser amada.

Até que ela percebeu que, dentro da jaula,

Era ela mesma que se odiava.

Entre o amor do outro

E o ódio por si mesma,

A resposta estava clara.

Ela decidiu abraçar o próprio medo com ternura

E quebrou os cadeados da jaula

Com a mesma faca

Que tentaram podar o seu prazer.

Trançou o seu caminho a seguir

Com uma ponte entre outras mulheres

Livres e indômitas.

*Publicado originalmente na Antologia Mulheres, Afeto e Liberdade

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Enquanto você me olha,

Me pergunto se a lente dos seus óculos

Vê mais do que a minha boca e os meus seios.

Se atravessa as minhas interrogações

E não pula até o ponto final.

Enquanto eu te olho,

Penso em te confiar um segredo em uma madrugada.

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Vitamina D

O sol bate lá fora,

Como se não houvesse milhares levados pelo vírus sob a terra.

O sol bate lá fora,

Como se 20 milhões não estivessem sem feijão no prato.

O sol bate lá fora,

e eu desligo a TV.

Mas o sol ainda bate lá fora

e os meus demônios dançam comigo no café da manhã.

O sol bate lá fora

E eu só gostaria de andar na sombra.

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